quinta-feira, 28 de maio de 2015

Zéfiro




 Chamo-me Zéfiro e sou o vento de oeste, típico da primavera.
 Todos me conhecem mas talvez não saibam o meu nome porque já   não me desenham nos mapas actuais.  Antigamente, nos finais da Idade Média e durante o Renascimento, eu aparecia sempre nas cartas de navegação
Era representado por uma cabeça de bébé, com cabelo encaracolado e com grandes bochechas cheias de ar que eu soprava, suavemente,  para enfunar as velas das caravelas e as levar a bom porto.
Tenho três irmãos, o Bóreas, o Noto e o Euro, mas estes são muito fortes e, por vezes, sem querer, sopram com tanta força que provocam grandes tempestades.
Eu, como sou pequeno e nunca crescerei, continuo a soprar aquela brisa agradável muito apreciada por todos, especialmente nos dias de muito calor.
Durante o inverno estou quase sempre de férias, mas de Abril a Setembro tenho muito trabalho e ainda bem, porque gosto de ver o prazer que as pessoas sentem quando as refresco.
Claro que também sou muito importante para as árvores e arbustos. Além de também os refrescar, sou eu que tenho a incumbência de transportar as sementes de um lado para o outro, pois os frutos são essenciais à vida das pessoas e animais.
Não gosto de me gabar, mas hoje fiquei particularmente feliz porque, num jardim onde chegava o meu sopro, vi uma senhora sentada num banco, com um ar muito satisfeito por estar a sentir-se muito fresca, e a olhar para as folhas das árvores que se balançavam alegremente nos seus ramos e que parecia estarem a fazer-lhe adeus.




domingo, 24 de maio de 2015

A Pescaria



Há anos, mesmo muitos, por razões de trabalho tive que ir  Luanda.
Não fui a única, pois mais colegas também foram.
 Durante a semana os dias eram preenchidos a trabalhar, mas no fim de semana estávamos livres.
  Nessa altura não havia muita coisa para fazer, pelo contrário, para além de se ir dar um mergulho à praia, o resto do tempo era passado no hotel.
Um colega que já lá tinha ido algumas vezes, lembrou-se de que, para passar o tempo, seria boa ideia começar a pescar.
Antes da viagem comprou duas canas de pesca e vários anzóis, de acordo com os conselhos dados por um amigo perito no assunto.
No primeiro fim de semana após a chegada, o meu colega disse-me que tencionava fazer a inauguração do grande acontecimento. Eu ofereci-me para o acompanhar, pois era uma maneira de estar distraída e, quem sabe, de aprender algo de novo.
Fomos comprar os iscos e partimos para a ilha, que não era longe, e lá nos instalámos. Ele preparou as canas, arrumou os anzóis da maneira que lhe tinham dito para fazer, pôs um isco numa delas e lançou a linha.
Esperou, esperou e nada. Mudou o isco, voltou a atirar a linha, continuou a esperar que um peixe picasse e nada se passou.
Pacientemente, repetiu este ritual umas quantas vezes, mas o resultado era sempre o mesmo; os peixes não picavam.
 Claro que o meu colega já estava a ficar frustrado, porque pensara que ia apanhar peixe a rodos.
Eu, entretanto, aproveitava para observar o que que passava à minha volta e reparei que um miúdo luandino,  com idade entre os oito e os dez anos, e que se encontrava a cerca de 30 metros de nós, também estava a pescar. Mas o rapaz não tinha cana de pesca, tinha somente um cordel onde punha o isco.
Pus-me a observar o rapaz e vi que, cada vez que ele atirava o cordel ao mar, retirava sempre um peixe.
Chamei a atenção do meu amigo para o que estava a ver e ele, que já estava desesperado por não conseguir apanhar um único peixe, sentindo-se derrotado, guardou todo aquele material sofisticado e declarou:
 - Nunca mais tento pescar. Comecei hoje e acabo hoje mesmo.




sexta-feira, 22 de maio de 2015

O periquito lutador





Vou várias vazes ao parque infantil com o meu neto de 6 anos, num grande jardim murado, onde há pequenos lagos, uma mata, um local com mesas para piquenique, um barzinho e três grandes gaiolas com aves diversas.
Depois dos baloiços, dos escorregas e das correrias pelo espaço destinado aos pequeninos, e depois do gelado, mais ou menos bem merecido, é sagrada a visita às aves.
As gaiolas são bastante altas e largas, porque têm muitas aves, e são cercadas por rede de alto a baixo.
Das três a que merece a atenção do meu neto é a dos periquitos e caturras, porque ele descobriu que estas aves gostam muito de comer as folhinhas pequenas dos arbustos que estão em frente.
Arranca pequenos raminhos que enfia pelos buracos da rede e os passarinhos agarram-se à rede e depenicam as folhas. Chegam a lutar para as apanharem.
Há dias, numa destas visitas, reparei que havia crias de periquito, talvez seis, que deambulavam pelo chão. Ainda estavam bastante implumes, por isso não voavam.
De entre estas crias destacava-se uma delas por não ter uma única pena  no corpo, nem sequer penugem. Estava "completamente nua", mas a cabeça valia pelo resto do corpo porque estava toda coberta de penas, como se fosse um capacete.
Com pouco mais de 5 cm, de todas elas era a mais dinâmica. Não parava de correr atrás dos adultos e de meter-se entre as suas patas, e conseguia "furar" entre eles para comer.
Fiquei bastante comovida com a  tenacidade deste pequerrucho aguerrido, completamente "em pelota", que não parava de competir com os mais velhos pela sua sobrevivência.
Bem sei que um capacete é uma grande ajuda!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Volta Ao Mundo Em 80 Horas



Já ouviram falar do livro ou do filme A VOLTA AO MUNDO EM 80
DIAS?  São muito conhecidos, e eu falei nessa viagem à volta do mundo, porque foi um feito histórico para a época. No entanto, eu consegui fazer uma viagem mais completa à volta do mundo e só em 80 horas.
Parece mentira mas é verdade, não estou a exagerar.
Qualquer pessoa pode fazer esta façanha, é só querer.
Eu adoro viajar. É uma paixão, mas como tempo é dinheiro e eu tenho pouco de um e de outro, optei por um sistema mais económico e mais rápido.
Assim sendo, ao longo das semanas e de acordo com o calendário das emissões televisivas, fui gravando os vários episódios sobre viagens: fauna, arte, a cultura dos vários povos etc.
Viajei no pólo norte com os esquimós e vi apanhar narvais, vi uma aurora boreal e estive num igloo. Estive na América Central e na América do Sul, onde visitei as fabulosas e ainda enigmáticas construções maias e incas, com direito a explicações históricas e científicas. Estive nas ilhas das Caraíbas, percorri o Peru, subi à cordilheira dos Andes para observar as aves de rapina, percorri a Patagónia e fiquei fascinada com a observação das espécies marinhas na época da reprodução e das lutas de morte dos machos pela preservação do seu estatuto e linhagem.
Apesar de não gostar de frio, fui mesmo ao pólo sul, com um grupo de cientistas, observar o efeito do degelo nos glaciares antárcticos.
Como devem imaginar, ainda arranjei tempo para visitar as belezas da Amazónia, antes de passar para o continente africano. Não fiz nenhum safari porque tenho medo de animais de grande porte, mas sobrevoei os lagos salgados onde vivem os flamingos e fiquei deslumbrada com a sua formação em voo.


Foi cansativo, mas não podia deixar de ver as costas do Mediterrâneo, tanto da Europa como da África, e rever o que aprendi nas aulas de história. Mas esta visita foi rápida e saltei de imediato para a Índia, para visitar os seus templos magníficos e assistir à reunião anual e  ritual de lavagem espiritual no rio Ganges.

Quase sem fôlego, parti para as ilhas do Pacífico, onde percorri florestas densíssimas para observar as danças de acasalamento das aves raras do paraíso e de outras que não têm este nome, mas também são raras e belas.
Como calculam foi um estafanso, mas consegui o meu objectivo. Fiz tudo isto em 80 horas. Só não sei quanto tempo tenho que descansar desta viagem tão atribulada.
Confesso, no entanto, que esta viagem sentada, apesar de variada e instrutiva, não chega "aos calcanhares" das viagens menos rápidas aos próprios locais, onde sentimos o calor humano, o contacto ombro a ombro, a correria de um lado para o outro, comendo uma sandes ou provando uma especialidade local, mesmo que não se aprecie.
Estar mesmo lá é outra coisa!
















Modernismo e Romantismo



Há dias, num dos meus passeios pela cidade, andando despreocupada a olhar para tudo e para nada, sem querer, a minha atenção foi despertada por uma jovem, na casa dos vinte anos, que ia à minha frente com mais duas amigas.
Não foi o facto de irem as três a passear o que me fez reparar nas jovens, mas o gesto que uma delas fazia com bastante frequência o que me chamou a atenção.
A rapariga trazia vestido uns calções daqueles que agora se usam, muito curtos, mas estes tinham  a particularidade de serem ainda mais curtos, ultrapassando o limite da perna e deixando já à mostra parte daquilo que se segue à perna.
Ora o problema era  a tentativa de tapar o que não podia ser tapado por falta de tecido.
 Mas o mais curioso de tudo isto é que, se não fosse o gesto tão repetitivo da jovem, eu nem tinha reparado nos calções, pois já estou habituada às modas sucessivas, o que me leva a pensar que, posssìvelmente, aqueles gestos não pretendiam tapar fosse o que fosse, mas, pelo contrário, fazer despertar a atenção para a última criação da moda e de quem a estava a usar.
 Esta situação fez-me divagar sobre as modas e convenções ao longo dos tempos, e "levou-me" a outras épocas em que era impensável as jovens e  as  mulheres em geral mostrarem nem que fosse o tornozelo.
E, claro, lembrei-me também da época romântica em que, também por exagero, era moda os jovens (alguns) ficarem a "morrer de amores" quando conseguiam vislumbrar um tornozelo ou até um "pé delicado".
O género humano é assim, gosta muito do que é moderno mas também gosta muito de exagerar!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Quero Ser Gaivota



Quando me sinto irritada ou muito enervada, para acalmar e encontrar paz de espírito, vou para junto do mar. É o remédio mais eficaz.
 Na brincadeira costumo dizer aos meus amigos que, numa reencarnação anterior, devo ter sido pescador ou marinheiro - quem sabe se não andei a desbravar o mar nas caravelas portuguesas no tempo das Descobertas, no séc.XV?
 Só assim se justificaria o meu amor pelo mar e pelo bem-estar que sinto quando observo o seu vai-vem, já para não falar do prazer de observar as gaivotas quando elas se "passeiam" pelo ar, planando muito quietas, aproveitando as correntes de ar quente. Vão, vêm, de vez em quando descem velozmente para depois subirem em flecha, como bombardeiros, e voltam a planar suavemente, sem pressas, fruindo a paisagem. Sim, eu acredito que se devem sentir muito felizes suspensas no ar, a observar o que as rodeia.
 Outra coisa que aprecio nas gaivotas é que são as únicas aves, ou quase, que se deslocam perfeitamente, tanto em terra, como no ar, e na água, onde se baloiçam ao sabor das ondas.
 Muitas vezes acabo por ficar com inveja delas mas, embora seja muito feio invejar alguém ou alguma coisa,  é inevitável.
Portanto, se numa reencarnação futura eu puder escolher, não há que duvidar, eu quero ser gaivota.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Segundo Paraíso Terrestre



Hoje o dia está cinzento, uniforme, impossível.
Não gosto destes dias. Fico sem acção para fazer nada, ou seja, só me apetece estar quieta, enroscada, sem mexer um dedo e, claro, se o corpo não se quer mexer, o cérebro dá rédea solta à imaginação e nunca mais pára.
Sem saber porquê, veio-me à memória um quadro célebre do paraíso terrestre, onde podemos admirar Adão e Eva a serem escorraçados do Éden por um arcanjo de Deus, por terem colhido uma maçã da árvore da sabedoria. Eles sabiam que podiam usufruir de tudo o que existia no paraíso menos tocar naquela árvore. Nada lhes faltava e eram felizes, porque é isso que acontece nos paraísos, tudo é felicidade. Mas a curiosidade foi demasiado grande e desobedeceram, cometendo o pecado original e, por isso, foram expulsos.
Como uma centelha o meu pensamento "disparou" e eu "vi" um segundo paraíso, aqui em Portugal, onde os cidadãos também cometeram um grande pecado, o pecado de quererem viver com dignidade e algum conforto, embora já prescindam de uma grande educação científica, não por terem uma vida de ócio, pois trabalharam e trabalham para viverem mas onde, também por causa de "arcanjos justiceiros", quem tem mérito científico se vê obrigado a emigrar e quem trabalhou ou ainda trabalha e não pode emigrar, se vê obrigado a ficar, na pobreza e sem dignidade.
Só gostaria de saber se algum pintor, mesmo que não seja muito famoso, se lembrará de pintar um quadro deste segundo paraíso terrestre e de todos os expulsos e desamparados.

Sou Uma Gota de Água










Sou uma pequena gota de água mas tenho viajado muito à volta da terra. 
Não acreditam... ora bem. Vou contar a minha viagem.
Estava eu muito sossegada na minha nuvem branquinha de primavera, a olhar para baixo para os surfistas, quando comecei a sentir um vento forte a arrastar-me a mim e às outras gotas. O vento tornou-se mais  forte e lá fomos todas de escantilhão, empurradas para não sei onde. 
O vento ficou furioso e, de repente, senti-me a cair a toda a velocidade e, catrapuz, bati com a cabeça no chão. Fiquei zonza, como devem calcular. Vá lá não perdi nenhum bocadinho...
Passado o susto comecei a sentir um frio dos diabos e congelei. As outras gotas congeladas, mais sábias, disseram-me que estávamos presas numa serra. Não sei quanto tempo lá estive hibernada com frio, só sei que um dia acordei com um grande estrondo e senti-me descer a uma velocidade alucinante, aterrada e sem conseguir ver nada. Foi uma avalanche, disseram.
Lá recuperei do susto e dei comigo a correr num rio, largo, com muito espaço para me balançar à vontade. Corri, corrri e fui dar ao mar. Aí é que foi bom. Balançava, balançava que era uma beleza e até chegava à areia. Mas o calor já era muito e evaporei-me  novamente e fui parar a outra nuvem, mas esta era escura, grande, e às vezes via uma luz forte e um grande estrondo no meio das outras nuvens. Era bonito mas eu tinha medo que me queimasse e ... "era uma vez eu".
O vento não parava de soprar. Fui arrastada mais uma vez e durante vários dias, nem sei quantos, só sei que fui parar a um sítio com muitas árvores, enormes - até havia palmeiras - e desfiz-me, sacudida contra as árvores. Pareciam bofetadas, e acabei por cair no chão.
Fui arrastada com as raízes e a terra.  Nem sei se desmaiei, só sei que estava exausta. Quando voltei a abrir os olhos estava  quieta, com muito espaço à volta e vi o céu e o sol, e  agora não me mexo muito  porque vim parar a um lago.
 Não sei quanto tempo vou ficar aqui, pois o calor, o frio e o vento não me deixam sossegar por muito tempo.